PROTESTO (2017)

protesto

foto: Paulo Cesar Lima

Dançar como uma forma de protesto oblíquo (indireto, torto) para gerar vitalidade e conexão em tempos de crise e incerteza. PROTESTO aciona o corpo como matéria sensorial e emocional em constante transformação. Um corpo em contínuo trânsito perceptivo que alarga o tempo, tornando presente cada experiência.

O Núcleo Artérias observou nos últimos anos diferentes práticas de transe. Neste estudo reconheceu princípios físicos comuns presentes em muitos rituais, como a desorientação do sistema vestibular, a vibração de tecidos corporais modificando o acionamento do sistema nervoso, a repetição de padrões percussivos e práticas de chacoalhar para ativar fluxos emocionais.

O primeiro contato do grupo com estados de transe foi em 2012, no Festival On Marche em Marrakesh com Adil Amimi, músico condutor de rituais Gnawa de Essaouira (pequena cidade litorânea no sul do país, centro dos rituais). Alguns modos de acionamento de estados de transe no Marrocos eram bastante similares aos de rituais de Umbanda praticados no sudeste do Brasil.

O antropólogo escocês Ioan Lewis usa o termo “Protesto Oblíquo” para descrever estados de transe em diferentes culturas como estratégias para pessoas marginalizadas, na maioria das vezes mulheres em sociedades dominadas por homens, encontrarem algum tipo de visibilidade, reconhecimento e espaço de existência social. Lewis estuda, entre outros fenômenos, o “Carnaval de Mulheres” (forma de Tarantismo propagada pelo sul da Itália), rituais dionisíacos realizados por mulheres na antiga Grécia, possessão feminina no vodu haitiano, Indian Shakers nos EUA, culto Zar no norte do Sudão, entre muitos outros.

O Núcleo Artérias, formado por mulheres, inventou suas próprias práticas para gerar vitalidades corporais em tempos de crise, ativando e reconhecendo o corpo como matéria perceptiva, viva (sensorial e emocional), integrada a outras matérias e em constante transformação.

Em diferentes práticas xamânicas ameríndias há um tipo de retorno a tempos onde os humanos não se diferenciavam dos outros seres, onde todos partilhavam a mesma forma possibilitando uma ampla comunicação. O grupo observou experiências similares no trabalho de “camuflagens orgânicas” da artista cubana Ana Mendieta, onde ela imergia seu corpo em paisagens para se reconectar com um “fluido universal”.

Para tramar sua própria vitalidade primitiva, o Núcleo Artérias fabricou um certo “tempo de indiferenciação” e “comunicação ampliada”, misturando seus corpos a outros materiais, corporificando e amplificando padrões neurológicos básicos relacionados às primeiras etapas evolutivas da vida (vibração, respiração celular e pulsação).

Entendendo que conhecer é personificar, o grupo inventou modos do corpo operar se conectando com outros corpos. Para isso instalou um ambiente relacional onde não há sujeito, ou objeto. Um ecossistema que ativa os sentidos, coabitado por “coisas” como lona plástica, pessoas, pedras, tecido dourado, sons, trepadeiras, musgos, aromas, um compensado e blocos de cimento.

Ao inventar um ritual coletivo para teatros, relacionado à transformação e à regeneração das conexões, o Núcleo Artérias propõe acionar o corpo como matéria sensorial e perceptiva, um corpo poroso, que expande sua capacidade de ser afetado como forma de vitalidade e potência política.

concepção/direção: Adriana Grechi | criação/dança: Bruna Spoladore, Lívia Seixas e Renata Aspesi | arte/figurino: Lu Mugayar| criação/instalação sonora: Dudu Tsuda | provocadores: Alejandro Ahmed, Rosa Hercoles | criação de luz: André Boll | operação de luz: Diego Gonçalves | colaboração: Nina Giovelli | estágio/colaboração: Luiza Meira Alves, Nicolle Tino, Annie Felix, Sabrina Dias | imagens: Paulo César Lima e Jônia Guimarães | arte gráfica: Fernando Bergamini | assessoria de imprensa : Márcia Marques – Canal Aberto | produção: Amaury Cacciacarro Filho e Corpo Rastreado | assistência de produção: Erika Fortunnato | projeto contemplado pelo 18º Edital do Programa de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo

Agradecimentos especiais: Roberta Alves, Armando Ferrazzi, Karin Serafin | Agradecimentos: Renato Jacques, Valéria Cano Bravi, estudantes da Anhembi Morumbi, Pedro Galiza, Nirvana Marinho, Bia Rangel, Lou Sturm, Paula Petreca, Priscilla Vilas Boas, Luciana Chieregati, Ibon Salvador, Simone Mello, Leandro de Souza, Francisco Lauridsen Ribeiro, Paulo Carpino 

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